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FORTE SÃO AS RAÍZES

Pigo Brayner é vocalista da banda Raízes Rasta, que em 2017 completa 18 anos. O associado, que desde pequeno joga bola no Clube, diz que o amor pelo esporte e pela arte corre em suas veias, uma vez que seu pai, que teve grande influência em sua vida, viveu do esporte e seu avô lhe deu seu primeiro violão. Conheça a história deste cantor jundiaiense.

Revista Clube – O que você mais aproveita do Azul e Branco?

Pigo – Já aproveitei muito todos os dias, mas como minha vida mudou um pouco (casei e tive filhos) acabei diminuindo minha frequência. Sou associado desde que nasci, quando havia título familiar e meu pai era o titular, então trouxe minha mãe, meu irmão, minha irmã e eu. Desde os cinco anos jogava futebol no CJ, nunca parei. O que me traz ao Clube hoje é esse esporte, tanto para os campeonatos, quanto para os treinos de quinta-feira.

RC – Em quais equipes já jogou?

P – Joguei ano passado na equipe do Tio Dirdo, sou fundador do Galoucos, no Juventude (fui vice-campeão duas vezes na primeira divisão), Tribo de Jah, depois fui para os Estados Unidos e voltei para ser técnico do Juventude. Joguei também no Dudinka, depois Brasil, Tio Dirdo novamente e em 2017 entrei no Mesa 18 (para jogar no Campeonato de Equipes Montadas).

Pigo ao lado de seu pai, Fernando Brayner

RC – Seu interesse pelo esporte então teve influência do seu pai?

P – Totalmente, ele respirou esporte também desde a infância por causa de meu avô e bisavô. Meu avô Hélio era professor de educação física no Divino Salvador, e ele acabou influenciando a família, as minhas tias faziam natação, um tio fazia automobilismo. Meu pai teve uma atuação muito forte no Esporte. Ele é muito conhecido na cidade como esportista, por Jundiaí disputou jogos regionais no tênis de mesa, basquete, futebol (jogou nas categorias de base do Palmeiras, Guarani, Santos, Monterrey do México e Paulista).

Quando minha mãe engravidou, ele parou de jogar futebol profissionalmente, apenas amador, depois parou de vez. Fomos morar uma época em São José do Rio Preto e ele jogou amador lá. Em 86, por causa de um problema na coluna, foi para os EUA e quando voltou já veio trabalhar no Clube no departamento de esportes. Ele joga com a turma dos veteranos de terça e de quinta.

Eu fui contaminado porque estava sempre atrás do meu pai. Meu irmão é educador físico e minha irmã (que é bem mais nova que nós e está se formando em Medicina) joga vôlei pela faculdade.

RC – Você chegou a jogar profissionalmente?

P – Por conta de jogar no campeonato interno do Clube, portas se abriram para jogar no futebol profissional, embora já estivesse em uma idade avançada para isso (20 anos). Um árbitro aqui do Clube, que era diretor do Clube Capivariano, levou a mim e mais três amigos para jogar lá. Eu fiquei só um mês.

Pela influência do meu pai no meio do esporte, acabei conseguindo fazer testes no Guarani, Corinthians, Ituano. Eu já estava cansado, e se não tivesse a banda (que comecei na mesma época) talvez eu insistisse mais um pouco, é que meu foco se dividiu e minha paixão pela música estava aflorando naquele momento. De Capivari liguei de um orelhão para o meu pai ir me buscar porque não queria mais.

Meu pai sempre respeitou muito as opiniões dos filhos, mesmo dando a sua. Ele sempre teve coração gigante e é fã do Raízes Rasta. Está no sangue, meu pai sempre teve uma veia artística muito forte, desenha muito bem, sabe tocar. Meu primeiro contato com música foi através de percussão na escola de samba, no bloco Azul e Branco do Clube, ao lado dele.

Pré-mirim do CJ. Em pé: Luis Felipe ‘Wood’ Geraldo, Tuim Gioconda, Thiago Faria, Adrianinho, Pioio. Agachados: Pigo Brayner, Renatinho, Eduardo e Thales Peterson. (foto: arquivo pessoal)

RC – Qual a importância do Clube para você?

P – O Clube sempre teve influência na minha vida. Meu primeiro emprego, como Office Boy, foi numa loja de celular, em 1995, e quem me deu esse emprego foram duas pessoas que jogavam com meu pai. Quando trabalhei como vendedor, quem me deu oportunidade foram empresários que também jogavam aqui no Clube. Hoje em dia vou a uma festa ou show, paro a toda hora para cumprimentar os meus amigos, pessoas com quem cresci. O Clube é uma memória viva da minha vida.

RC – Como aumentou seu interesse em se envolver com música?

P – Na adolescência eu vivia no centro, porque minha avó morava na Rangel Pestana, e montei com um amigo, o Guto (José Augusto de Moraes), a banda “Unidos do Porão” em que brincávamos com instrumentos de escola de samba. Nesse meio tempo meu avô tinha um violão parado na casa dele, que me deu e me ensinou três notas. Naquela época desenvolvi meu ouvido, comprava com o Guto as revistinhas de músicas para tocarmos. Depois que melhoramos, tocávamos em rodas de fogueira com amigos.

RC – Como surgiu a banda de que é vocalista, Raízes Rasta?

P – Em 1999, quando tinha 19 anos, um amigo me ligou convidando para tocar em seu aniversário. Ele comentou que estariam lá para tocar o Maurício, no teclado e voz, Briel, na batera e o Ielpo, que toca guitarra, e eles precisavam de mais alguém na guitarra e voz, e queriam que fosse eu. Esse amigo que me chamou sabia que gostava de Natiruts, Tribo de Jah, Bob Marley. Topei, ensaiamos em uma quinta-feira e tocamos no sábado com um repertório de 40 músicas. Foi uma megavibe.

Um dos convidados já chamou pra outro aniversário na semana seguinte, e depois já fomos chamados para tocar no Bar de Praia (hoje Las Muchachas), com cachê. Foi então que tivemos que escolher um nome para a banda. Eu morava em São Paulo e estava vindo para Jundiaí quando vi um antiquário em que estava escrito Raízes e pensei: taí! Por causa de registro não pudemos deixar só Raízes, foi quando virou Raízes Rasta.

Tocamos nas principais casas de Jundiaí, no Baile do Havaí, Festa do Chope, Festas da Prefeitura, começamos a ficar conhecidos e tocar fora da cidade. Saiu uma matéria no jornal e o trabalho foi sendo valorizado. Acabamos vivendo daquilo, durante oito anos (financeiramente falando).

RC – É possível viver só de música?

P – É possível, mas é um mercado cruel, porque existem altos e baixos, é muito instável. Vejo que o mercado fonográfico é muito dependente de um hit para entrar, mas depois que se entra e mantém um nível de qualidade da música e um trabalho por trás rola pra caramba. Tem que ser organizado e ter alguém na venda, não adianta ficar esperando o telefone tocar porque é muito difícil. Graças a Deus tivemos uma época que o telefone só tocava, em meados de 2003 a banda Raízes Rasta teve um boom dentro de nossa proporção (não fomos pro Faustão, rs). Tocamos em rádios grandes como 89,9, Metropolitana, Dumont FM, Tropical FM, em rádios com o mesmo porte da Dumont, com abrangência regional forte – fizemos o mapeamento com uma produtora top em São Paulo que estudou o alcance.

Dentro da produtora tinha uma sala só da banda que a gente pagava (salário e estrutura). Na época a internet era bem fraca, discada, então era tudo por telefone. Hoje é em dia é muito fácil, Skype, WhatsApp etc. A galera tem que aproveitar mais isso.

1ª turnê da banda em Santa Catarina, Itapema em 2000 – Rubens Pechiare, Weber Neno Schroedes , Pigo Brayner, Maurício Nascimento, Glauber Mariano e Gabriel Trevisan Denardi (foto: Rafael Ferreira)

RC – Quando perceberam que havia passado a fase do auge?

P – Tocamos em grandes casas (Canecão – Rio de Janeiro, Opinião – Porto Alegre), festivais (Espírito Santo, Goiás). De repente o mercado do reggae deu uma esfriada, não só com o Raízes, mas com todas as bandas, e estar em Jundiaí também dificultou, porque em São Paulo o mercado é outro, muito mais fácil. Pra fazer um show hoje em São Paulo existe o custo de transporte e para tocar em um raio acima de 300 km exigíamos hospedagem (além da alimentação), então ia ficando cada vez mais caro para quem contrata para um público que já não estava acompanhando tanto (em meados de 2006). Foi quando lançamos o último disco, que não teve o mesmo impacto, e em seguida surgiu a oportunidade de ir para os Estados Unidos.

RC – Como surgiu essa oportunidade?

P – Em 2008 fui para lá, fiquei em torno de oito meses. Sou formado em Gestão Ambiental e fui por causa da minha profissão, só que, coincidentemente, por sempre jogar futebol, fui chamado para ser jogador de um time amador e coordenador de meio ambiente de um time de futebol.

O dono do time ama o meio ambiente (coisa em que o americano não é muito ligado) e fui aplicar os conceitos de coleta seletiva, reaproveitamento de água e alimentos, redução de consumo de copos descartáveis. Fazíamos mensagens de paz durante os jogos, criávamos banners com folhinhas. Consegui aplicar isso dentro da casa, em que cuidava dos jogadores (eu com 28 anos e eles com 19). Eram dois americanos, dois camaroneses e um austríaco. Estourei o joelho no primeiro dia e então fui ser técnico da categoria sub-09. Gostei, mas foi conturbado, porque minha filha ficou no Brasil. Lógico que aproveitei, nunca tinha saído do país, foi sim uma experiência válida, mas podia ter sido melhor.

Fiquei uns seis meses com esse time na Flórida, depois trabalhei e morei por uns meses na Califórnia e voltei para o Brasil.

RC – E, quando foi para os Estados Unidos, a banda continuou?

P – Quando eu fui pra lá os caras tentaram arrumar um vocalista pra banda, e eu fiquei na minha. Não é me gabando, não é por cantar bem, mas se eu pegar um cego, levá-lo pra um show e mudar o vocalista, o cego vai achar que é outra banda. Se trocar só outro integrante que não o vocalista, provavelmente ele não vai perceber a diferença, a identidade da banda continua. Naquele tempo eu estava com 7 para 8 anos de banda, já tinha uma identidade. Eles tentaram colocar outro e não deu certo porque não gostaram.

Até que em 2012, o Maurício mandou uma mensagem falando sobre um edital que tinha saído em Jundiaí para eu dar uma olhada e ver se não encaixava com a gente. Em duas noites eu escrevi um projeto, com o nome de “Som Ambiente”, que propaga a conscientização ambiental através da música. É um Projeto Municipal de Incentivo à Cultura, a diferença é que não envolve a Lei Rouanet nem o PROAC, pois não abate do imposto de renda, ICMS, é a própria prefeitura que promove e investe. Cem projetos concorreram, e o nosso foi selecionado no módulo música – gravação de disco.

Foi então que peguei gosto por desenvolver esses projetos, e quando em 2014 saiu outro edital da prefeitura, fiz um novo projeto que tinha como objetivo contar a história da banda, que foi um documentário, com depoimentos, imagens. O projeto foi aprovado e contratamos uma produtora excelente de São Paulo. No final de 2015 saí da empresa em que estava trabalhando aqui no Brasil e montei uma produtora pra cuidar da carreira do Raízes: show, imagem, site e também escrever projetos de leis de incentivo. Fiquei 10 meses e nesse meio tempo escrevi um projeto pro PROAC para gravação de um DVD para ser feito no Polytheama, com participações especiais, mas não rolou por causa da captação. Agora, estou com um novo projeto escrito da minha carreira solo que tenho em paralelo.

Com a produtora gravamos um último disco, uma coletânea 17 anos do Raízes, e distribuímos. Foi então que me chamaram de volta na empresa em que trabalhava, o que veio a calhar, porque estava difícil, suado.

Maurício, Rubens, Glauber, Pigo, Gustavo e Gabriel em 2016

RC – Quais são os próximos projetos do Raízes Rasta?

P – A banda agora vai dar uma pausa, fizemos um último show em junho e pretendemos ficar reclusos até o final do ano para produção e gravação de um novo disco, queremos focar nisso. Quando estamos fazendo shows ficamos muito presos a ensaios, então como todo mundo trabalha muito, só ensaiamos na terça-feira.

RC – O que tem ouvido recentemente?

P – Eu escuto muito reggae, na verdade estou em dívida comigo porque quando estou no carro geralmente coloco na rádio, não tenho tempo. Eu gosto de Zig Marley, Red Hot Chilli Peppers, SOJA, Cidade Negra. Minha esposa é do rock e me influenciou muito no rock clássico, então gosto de Deep Purple, The Doors, Led Zepelin. Sou eclético, gosto também de Seu Jorge, Jorge Ben Jor. Minha raiz é do samba, gosto do swing, do soul.

RC – De que forma cuida de sua voz, que é seu instrumento?

P – Achava que sabia cantar, mas fui amadurecendo e vendo como é difícil, são muitas técnicas. Eu sempre tive uma deficiência com a voz, sempre ficava rouco, fazia três shows na mesma noite e descobri que estava cantando mal. Quando comecei a fazer voz e violão em bar, minha voz melhorou demais, hoje aguento tocar três horas, é o treino. Lógico que fui atrás de ajuda profissional, com uma fonoaudióloga, a Márcia Gualter Karelisky, que é sensacional. Ela é especializada em canto, dá palestras na TV e treinos para palestrantes. Depois que passei com ela, tudo melhorou, me policio para falar mais baixo, tomar bastante água, fazer exercícios de voz.

RC – O que é sucesso para você?

P – O sucesso é consequência do trabalho benfeito. É hipocrisia das pessoas falarem que gostam da música pela música e não querem conversar com ninguém nem dar entrevistas, mas poxa, como irão propagar seus ideais, só através da música? Para um artista ser conhecido, ele tem que estar preparado para isso, em todos os sentidos, e isso faz parte de um bom trabalho.

A minha enteada vive no celular vendo os youtubers, que estão ganhando muita grana. Então todo mundo começa a querer montar canal no Youtube pra ficar famoso, mas com qual propósito? Não dá pra forçar isso, o dom é natural, algo que Deus deu, acho que antes de tudo é preciso se perguntar: “qual é o meu dom?” e ir atrás disso.

Vi uma entrevista de emprego em que o candidato foi questionado sobre o que fazia de melhor e respondeu “tudo”. Não, cara, você não faz bem tudo. Primeiramente é necessário identificar o seu maior talento e se desenvolver em cima dele, se aperfeiçoar e não forçar as coisas.

Páginas Azuis – Revista Clube | Edição de julho de 2017

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